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Como um vôo de
pássaro - um horizonte sonoro
Antônio Eduardo
pianista e semiótico

Somos mediados e interligados por uma rede, uma
pluralidade de linguagens, verbais e não verbais,
sinais, silêncios, ruídos, gestos, olhares, palavras,
sons musicais, sons não musicais, já que somos seres de
linguagem. O homem é linguagem : palavra, escrita,
pintura, música, tudo é linguagem, tudo é comunicação
feita com signos em códigos que , gerando mensagens,
representam a realidade para o homem.
Assim o homem cria, produz, trans-forma, in-forma,
através de uma pluralidade de linguagens. E submeter-se
as regras da linguagem é integrar-se em uma comunidade
linguística e social. Como acontece na música.
Vivemos em uma época em que os julgamentos de valor se
tornam questões complexas, às vezes de difícil
abordagem.
E no caso da linguagem musical ela é internacional, uma
só, todo mundo entende, pois, de todas as artes, a
música é a mais popular e a mais acessível. Por isso,
decidir entrar no universo particular de um compositor e
de sua obra não se trata apenas conhecê-la em sua
trajetória simples .Avançar então, no universo musical
da obra Harry Crowl é como embrenhar-se num “labirinto”
, onde a forma musical cede seu lugar à sonoridade
livre, apelando para o que tem de mais acessível, como
na idéia do “espelho borgiano, imerso num
inconsciente canônico de imagens e arquétipos”.
Harry Crowl, nasceu em Belo Horizonte MG, em 1958, é
compositor, musicólogo e professor.Estudou violino com
José de Mattos e matérias teóricas na escola da Fundação
Clóvis Salgado (Palácio das Artes), em Belo Horizonte.
Em 1977, foi para os EUA, onde estudou viola na Westport
School of Music, Westport, Conn., e composição com
Charles Jones, na Juilliard School of Music.
A partir de 19994 deixou as alterosas e passa a viver em
Curitiba, tendo realizado importante pesquisa sobre
nossa música do período colonial. Sua vinda para o sul
foi também uma “peregrinação” em busca de novas
linguagens, “ de influências, de textos e contextos”,
“absorver os ruídos do mundo”, citando o compositor
Alain Féron ao se referir a Charles Ives.
Conheci-o de início, virtualmente, por trocas de e-mails
e “skipes” até ter a coragem de encomendar-lhe, em 2004,
uma peça para piano para fazer parte de meu projeto
Bossa Nova Serie. Escreveu-me Transeuntes, obra que
estreei no Centro Cultural São Paulo, no mesmo. Tivemos
a oportunidade de participar juntos do VI Encontro de
Música Latino americana, em Santiago do Chile,e foi aí
que pude conhecer as duas entidades: compositor e obra.
Apresentou-me sua enigmática “Música para Flávia”
e mais tarde dedicou-me sua pungente “como um vôo de
pássaro”, para flauta e piano.Obras que representam
claramente um compositor comprometido com sua própria
estética, formando e conformando seu próprio gesto
sonoro. Despreocupado com gênese de sua linguagem , sua
obra “não é regional, ela é internacional sem ignorar o
nacional”
Novembro próximo, no dia 08, terei a oportunidade de
tocar em Santos,duas de suas peças para piano, “Música
para Flávia” e “Transeuntes”, na Pinacoteca
Benedito Calixto, na idílica casa branca, de
frente à praia do Boqueirão. Um lugar especial para
homenagear os cinqüenta anos deste grande compositor,
cuja música é muito pouco conhecida, em nosso país. Fato
não muito diferente de diversos compositores e artistas
nacionais preocupados em produzir e divulgar nossa
contemporaneidade. Talvez, como afirma o próprio
compositor, exista no Brasil, ainda, um sonho romântico
do gênio incompreendido que um dia será descoberto. E os
espaços tenham de ser abertos, nem que a “fórceps”, pois
“a música de concerto nunca vai ocupar um lugar
semelhante ao da música popular. Nem aqui nem em nenhum
lugar do mundo”.
Há a necessidade de formar público, formar novas
gerações comprometidas com a curiosidade estética do
novo, novos olhares,. Enfim buscar o NOVO
Aliás , porque NOVO ?
Porque não um grande cozido com um q de
expressionismo, com um q de neoclassicismo, com um q de
vanguarda, com um q de modernismo moderado, com um q de
romantismo, com um q de classicismo, com um q de barroco
, com um q de oriental, com um q de cultura africana,
com um q de pop e rock, como setencia ironicamente
Buckinx, em seu livro “pequeno Pomo”
Ou ainda, integrar tudo isso, “transformando
elementos simples, que estão a disposição de todo
artista, transformando em poesias musicais,
ensinando-nos que a música é sempre mutante, mas também
é sempre a mesma”, como afirma Fernando Bini.
Enfim, tocar as coisas ,elas mesmas fazendo-as
portadores de uma significação traçada em torno da
experiência vivida pelo próprio artista.
Pois, ... A razão é a portadora de sentido e não o
mundo...

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